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Fonte: Revista Personi, ed. 20, ano 3

Violão com sotaque brasileiro
Existem muitos violões parecidos, mas certamente os do luthier Lineu Bravo têm personalidade

Chico Buarque, Ana Carolina e Elba Ramalho são alguns dos grandes nomes que possuem um violão dele. Músico amador de longa data, a praia de Lineu Bravo sempre foi o choro e transitar pelo meio musical lhe rendeu contatos e um ouvido muito apurado, especificamente para a música brasileira. Sempre fazendo instrumentos por hobby, Lineu passou a ser luthier há 12 anos. O primeiro violão “profissional” já surgiu com uma qualidade acima de sua expectativa.

Mas sem dúvida, em 2005, aconteceu algo que marcou a carreira. “Desde o início fui bastante feliz, as coisas deram muito certo. Eu já tinha alguns clientes importantes quando fui a um evento que reunia a nata do violão brasileiro, em Belo Horizonte. Cheguei no hotel onde os músicos estavam hospedados, cumprimentei meu amigo Alessandro Penezzi (compositor e multiinstrumentista) e descobri que todos eles já haviam tocado o violão dele, produzido por mim. Naquele dia eu saí de lá com uma sete encomendas, inclusive do Lula Galvão (violonista e guitarrista) e do Maurício Carrilho (instrumentista, arranjador, compositor e ensaísta). Meu portfólio deu um salto enorme, foi uma arrancada, fiz amizade com muita gente”, lembra.

Basicamente, os violões com os quais Lineu trabalha são os clássicos de nylon e o de sete cordas de aço brasileiro, específico para acompanhamento no choro e que ele está produzindo de dois a três anos para cá. “Eu o chamo de modelo Rogério Caetano. Ele foi desenvolvido por mim e pelo Rogério, que é um cliente, parceiro e grande violonista do Brasil, além de ótimo solista e maravilhoso em acompanhamento. Ele tinha um som na cabeça e eu, intuitivamente, cheguei neste som”, conta o luthier.

E assim como nenhuma avó deixa que o neto coloque uma pitada de sal em sua comida, o luthier deixa claro que ninguém põe a mão em suas peças. Isso, é claro, no processo de construção. “Trabalho sozinho e absolutamente concentrado. Tenho uma mecânica de produção. Como um instrumento demora cerca de dois meses para ficar pronto, se eu fizer somente ele vou acabar ficando muito tempo parado. Ou seja, uma etapa cumprida hoje, só terá continuidade no dia seguinte. Então eu faço alguns instrumentos ao mesmo tempo, só que cada um em um estágio diferente. Assim consigo fazer dois ou três instrumentos por mês. Ou seja, eu não perco tempo e consigo manter aquele foco individual em cada coisa. Não trabalho em série, pois cada peça exige um cuidado”, explica.

Por ano, Lineu produz três ou quatro cavaquinhos e uma média de 25 a 30 violões. “Cada encomenda que eu recebo é uma responsabilidade enorme. O cliente já espera aquela qualidade que foi referência para ele me procurar. Como eu tenho uma fila de espera, ou seja, geralmente eu só entrego a encomenda depois de um ano, o meu trabalho acaba superando as expectativas, pois melhora a cada instrumento que faço”, comenta.

Há quem diga que é arte, outros defendem que é ciência. O fato é que esta é uma atividade complexa. Ainda mais se tratando de um autodidata. O luthier desenvolveu um “know how” próprio e talvez isso seja um dos motivos da peculiaridade de seu instrumento. “Nunca estudei. Eu brinco que eu sou meio Glauber Rocha (cineasta brasileiro), uma madeira na mão e um som na cabeça. Primeiro eu tinha o som para depois ver como ia construir o instrumento em busca dele. Eu vim da ignorância, o que me proporcionou a liberdade”, observa.

Na lista de clientes, o luthier adoraria ter feito um violão para duas de suas grandes inspirações musicais: Baden Powel (um dos maiores músicos e violonistas do Brasil) e Rafael Rabello (compositor e grande violonista ligado ao choro e à música popular brasileira). A cavaquinista e compositora brasileira Luciana Rabello, irmã de Rafael, também tem um cavaquinho de Bravo. No cenário atual, Lineu comenta que há uma safra maravilhosa de músicos, principalmente de violonistas. “É impressionante como a qualidade do violão brasileiro está crescendo nos últimos 20 anos”.

A ideia do célebre escritor russo Tolstói, que disse que “se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”, se aplica à história do luthier. “Eu sempre tive aquele conceito de fazer o melhor violão para a música brasileira e descobri, modéstia à parte, que ele é maravilhoso para ela. Praticamente a maioria dos grandes nomes do violão brasileiro usa o meu instrumento. Também percebi que ele é extremamente versátil, tanto que músicos clássicos e europeus tocam meu violão e isso foi uma grande surpresa. Quando eu construo, estou com o Tom Jobim e Pixinguinha na cabeça e, de repente, os caras estão tocando Bach (famoso compositor alemão) no meu violão.”.

Palavra de quem toca Lineu Bravo:
Chico Buarque: “O violão do Lineu Bravo é o de minha estimação. Além de bonito toda a vida, é violão compositor”.

Paulo Aragão, Quarteto Maogani: “Conhecemos o violão do Lineu através do Mauricio Carrilho e ficamos encantados com o alto nível do acabamento, com a afinação e o equilíbrio perfeitos. São muito adequados para o tipo de música que fazemos, que mescla na mesma proporção texturas camerísticas com levadas rítmicas, certos cuidados sonoros do violão clássico com a pegada da música popular”.

Douglas Lora: “O violão de Lineu Bravo é hoje em dia um dos maiores representantes da sonoridade brasileira. Um sete cordas construído com excelência, instrumento fácil de tocar e com um som grandioso. Um dos melhores violões que já tive!”

Filho de marceneiro…
Lineu viveu dentro da oficina desde criança e naturalmente foi desenvolvendo suas habilidades artesanais. Aos 10 anos começou a tocar cavaquinho e já tinha a curiosidade de trocar as peças do instrumento. Lá pelos 14 anos fez o seu primeiro cavaquinho. Em 2001 é que ele resolveu se profissionalizar. “Na verdade, quando decidi ser um luthier profissional eu estava desempregado e quebrado. A princípio foi uma solução imediata e eu nunca imaginava que iria dar tão certo. Aí virou uma bola de neve”, brinca. Natural de Sorocaba, Lineu vive há quatro anos em Taubaté. “Tenho uma qualidade de vida ótima! Por incrível que pareça eu não conhecia a cidade. Gosto muito dessa região, inclusive por sua localização. Eu brinco que assim que entrei aqui, Taubaté abanou o rabinho para mim. Aluguei um espaço para trabalhar e um lugar para morar. Há pouco tempo comprei um apartamento. Agora me enraizei mesmo”, conta.

- Matéria “Violão com sotaque brasileiro” na Revista Personi de abril

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